O lugar da mulher em missões humanitárias: a experiência enriquecedora de Renata Pretti no Médico


Renata é carioca, formada em Relações Internacionais no IBMEC RJ e com pós-graduação em Sociologia pela Universidade de Lisboa. Atua em contextos humanitários e no Terceiro Setor desde a graduação. Começou na querida Maré, foi voluntária na Índia e trabalhou na Anistia Internacional no Rio de Janeiro e na Cáritas RJ. Atualmente, é HR Manager no Médicos Sem-Fronteiras, por onde participou de missões em Bangladesh e duas vezes na República Centro Africana. Renata se identifica como feminista, antifascista, antirracista e, claro, antiBolsonarista. Nessa entrevista para o MaRias, Renata conta um pouco de sua trajetória em organismos internacionais.



Como você começou a trabalhar em organizações internacionais? Quais foram as suas principais motivações?


Comecei a trabalhar em ONGs, ainda, cursando Relações Internacionais. Meu segundo estágio foi em uma organização na Maré, chamada Luta pela Paz, que promove a inclusão social e cidadania pelo esporte. Depois desse estágio, dei sorte de já encontrar um emprego na Anistia Internacional no Rio de Janeiro, assim que ela tinha acabado de abrir. Comecei fazendo F2F, ou seja, era daquelas pessoas que pedem dinheiro na rua. Acabei subindo a um posto de Assistente e acabei me envolvendo com a área de gestão de equipes e recrutamento. Trabalhei um pouco na Cáritas RJ na área de gestão de voluntariado e fundraising e lidei pela primeira vez com refugiados na pele. Estas competências adquiridas em contexto de duas ONG Internacionais com atuação no Rio de Janeiro acabaram sendo percebidas como mais-valia para o Médicos Sem Fronteiras. Quando me candidatei, só pra ver qual dava mesmo, estava em Lisboa fazendo um Mestrado em Sociologia. Já não estava curtindo muito e decidi ficar só com a Pós para sair e fazer missões com os MSF.


Acho que, desde o início da faculdade, eu já tinha percebido que o tema da minha vida seria Direitos Humanos e sempre com o foco em mulheres, por me considerar feminista desde que me entendi como mulher e o peso estrutural que isso carrega. Por mais que hoje o trabalho que eu faça seja, na realidade, em Recursos Humanos, o impacto humanitário dele é imenso - não por mim individualmente, mas pela relevância da organização pela qual atuo hoje.

Como foi a sua experiência inicial como mulher em trabalhar numa organização não-governamental em regiões inóspitas? Você encontrou alguma dificuldade dentro da organização relacionada ao gênero?


Na verdade, eu nunca senti nenhuma dificuldade absurda. Essa é a importância do feminismo intersecional para mim, existem em mim diversos recortes de gênero e classe que influenciam em minha posição perante o mundo. O ser mulher no Brasil, na África Subsaariana, no Bangladesh, na África do Norte e na Europa é radicalmente diferente. A verdade é que, enquanto mulher em processo de expatriação, eu tenho diversos mecanismos de segurança que me permeiam e que minimizam os riscos aos quais sou exposta. O mais importante é pensar nas mulheres que lá estão e que lá vão ficar, e as condições financeiras e estruturais a que estão subjugadas. Eu, como eterna visitante, não percebo na pele estas dificuldades, tento apenas compreender e trabalhar estas questões dentro dos limites securitários a mim impostos. Eu tenho muito mais a aprender com homens e mulheres desses lugares “inóspitos” sobre suas vivências e problemas, e estou em uma posição de extremo privilégio em relação a eles.


Dentro da organização, senti algumas dificuldades ligadas ao “ser mulher brasileira”.


Como somos poucas latinas na organização, existe uma super fetichização do meu corpo e sexualização dos meus atos, principalmente pelos colegas europeus. O complexo é que existe um duplo movimento que tenho que fazer da minha identidade de gênero: a luta para ser aceita como mulher latina sem ser sexualizada (principalmente com os europeus) e a mudança de hábitos que devo fazer em respeito à cultura local.

No Bangladesh, por exemplo, eu não podia tocar em meus colegas do gênero masculino, tinha que cobrir meu tornozelo e cotovelos, mas eu não enxergava isso como uma opressão, mas sim como respeito principalmente pelas mulheres que ali estão, que estão “sujeitas” à esta condição cultural e que trabalham dia a dia no hospital. Na República Centro Africana, eu podia me vestir de maneira mais “livre”, bem como as mulheres de lá - mas isso não significa que a mulher Centro Africana seja mais “livre” que a Bangladesh ou que a Brasileira.

Em relação às suas missões no Bangladesh e na República Centro-Africana, como foi sua experiência enquanto mulher dentro dessas sociedades? Você sentiu ter sofrido alguma discriminação de gênero dentro dessas sociedades?


Não senti nenhuma discriminação de gênero a mais do que eu senti no Brasil ou que sinto em Portugal, somente com roupagens diferentes. O patriarcado é o mesmo para todas nós, mas ele se expressa de maneiras diferentes - e por isso que a solidariedade internacional entre mulheres para mim é tão importante. Queria reiterar mais uma vez que, eu como mulher estrangeira em processo de expatriação estou superprotegida por uma estrutura de privilégios que acabam por impedir que eu tenha “acesso” às opressões e violências de gênero que as mulheres que ali estão sentem.


As únicas coisas que eu poderia pontuar que eu vivi muito brevemente foram ouvir comentários de alguns colegas nacionais no âmbito de trabalho: em relação à compulsoriedade produtiva e do casamento, em relação à mulher branca ser mais “aberta sexualmente”, em relação à idade produtiva no ambiente de trabalho para mulheres x homens, beleza compulsória. Queria enfatizar que o maior problema que eu vivi vieram de colegas que identificaríamos como “brancos”, pois eles sim têm uma posição de poder maior em relação a mim, pois a mulher branca expatriada é vista como intocável pelo staff nacional negro. Já em relação aos meus colegas europeus, eu viro só mais uma mulher latino-americana.

Gostaria que você contasse um pouco do trabalho que realizou nesses dois países indicando se suas missões possuíam ações voltadas especificamente para mulheres.


No Bangladesh trabalhei em um hospital mais generalista com serviços de internação e consultas externas, onde o foco eram os cuidados no âmbito de campos de refugiados Rohingya, que não tem acesso algum à saúde primária no país no qual se encontram. Não existiam um foco expresso em saúde da mulher, pois o propósito do hospital não era este. Eu, como gerente de recursos humanos, fazia muitos e muitos recrutamentos para pessoal médico e paramédico, e via que as candidaturas eram majoritariamente enviadas por homens, e por isso, existia um procedimento de ação afirmativa de dar pontos a mais segundo o gênero. Portanto, a mulher ganhava um ponto a mais de maneira a tentar reequilibrar o acesso ao emprego. Infelizmente, o que eu também percebi é que, quanto mais qualificado era o posto, menos mulheres se candidatavam. E, também, nas entrevistas, as mulheres eram mais “travadas” e com menor capacidade de oratória que os homens - com mais facilidade de fala por serem mais expostos ao mundo do trabalho e a vida pública.


Na República Centro Africana, trabalhei na maior maternidade do país que tinha um foco claro em direitos sexuais e reprodutivos. Os serviços da maternidade eram de pré e pós-parto, realizar o parto em si, apoio psicológico em caso de aborto espontâneo e aconselhamento em planejamento familiar. Sempre muito cheia, a maternidade tinha, por vezes, mais mulheres em busca de métodos contraceptivos do que partos em números. No contexto cultural, a mulher não podia buscar estes métodos sem a autorização do marido / família, portanto ter este serviço gratuito e de forma anônima empodera as mulheres a buscarem aconselhamento. Sendo a República Centro Africana, o segundo país no mundo com a maior mortalidade materna no mundo, ter esse serviço de qualidade oferecido em massa e de forma gratuita é de extrema importância para a saúde da mulher centro-africana, por isso é um dos maiores projetos do MSF. Tinha muito orgulho do nosso impacto a nível nacional - inclusive regional - e também do fato de termos como staff muitas mulheres ocupando cargos de enfermeiras, “midwives”, médicas.

Como é a experiência da identidade de gênero nessas sociedades em relação a sua experiência de identidade de gênero? Qual o papel da cultura para essas diferenças?


Como eu já acabei mencionando um pouco mais acima, acredito que o patriarcado e as opressões de gênero sejam globais. Nós todas o sentimos com roupagens diferentes. O que eu percebi é que todas nós estamos sujeitas à avaliação das nossas atitudes, vestimentas, comportamento e reprodutividade de maneira estrutural e global. Acredito que muitas vezes a cultura é usada como um fenômeno para nos afastar como mulheres e para esconder o real problema do patriarcado em sua globalidade.

A partir de sua identidade como uma mulher branca sul-americana, como foi sua experiência de trabalhar com mulheres em situações de vulnerabilidade na República Centro-Africana e em Bangladesh, considerando-se que estava atuando como representante de uma ONG europeia? O que você acredita ter sido a sua contribuição e dos Médicos sem Fronteiras na vida dessas mulheres?


Vou contar uma história que talvez não responda diretamente à pergunta, mas que pode ser uma elucidação: eu participei de dois 8 de Março em Bangui (capital da República Centro Africana). Como usual, é feita uma festa para as mulheres, todas nós nos vestimos com os “pagne” do 8 de Março e paramos as atividades durante uma tarde para promover atividades culturais - danças, debates, poesias - tudo isto organizado e feito pelas staff tanto nacionais quanto expatriadas. Da primeira vez, fui chamada pela Dona Isabel para ajudar na organização, eu cheguei na primeira reunião e vi um homem mediando a reunião. Eu fiquei possessa, e cortei a fala dele e o expulsei da reunião. Tomei a palavra e disse: “Amigas, não podemos deixar homens na reunião de organização do 8 de Março! E, também, a festa não pode ser só baseada em música, temos que fazer um protesto, um ato ou alguma coisa!” Eu, cheia de razão, fui puxada para o lado pela Dona Isabel, uma senhora já nos seus 50 anos, que me disse: “Renata, aqui nós não fazemos o 8 de Março bem assim” Eu na hora fiquei embasbacada com a minha atitude colonialista de mulher branca sul-americana, querendo ensinar o que era o 8 de Março e para o que servia para as minhas irmãs centro-africanas - quando elas o sabem muito bem, só o vivem e celebram de outras formas. Erro não cometido da segunda vez que participei como uma pessoa normal e só fiquei encarregada de um comitê juntamente com as minhas outras colegas.

Nem sempre o feminismo é libertador, ele pode adotar uma narrativa colonialista e de superioridade em relação aos nossos e nossas colegas de outros contextos culturais, se não levarmos em conta especificidades históricas e vivências.

Qual maior desafio você viveu no seu trabalho?


Talvez eu saia um pouco do tema, mas acredito que o maior desafio deste trabalho seja a carga dele em si. Quando somos enviadas para missões, estamos lá para isso. Trabalhamos e vivemos com as pessoas que trabalhamos. Estamos sempre disponíveis para reuniões e estamos sempre no modo urgência - é a natureza do trabalho do MSF, pelo menos. A conciliação da vida pessoal com a do trabalho também é difícil. Seja pelo aspecto de morar onde trabalha e, além disso, morar com sua equipe, seja pelas pessoas que ficam “fora” da sua vida durante as missões - pais, mães, amigos, companheiros e companheiras de vida. Também, adiciono o fato que, para algumas pessoas, o estresse de trabalhar em modo urgência pode não ser suportável (exemplo, se existir algum conflito armado na cidade, você tem que ficar ligada porque é provável que o hospital encha!) e também ver algumas coisas mais pesadas como: armas, tanques, bazuca, desnutrição, extrema pobreza e mortes.

Muitas internacionalistas, outras profissionais e estudantes têm vontade de trabalhar em ONGs como o médico sem fronteiras. Qual conselho você dá para essas mulheres ingressarem nessas instituições?


A verdade é que a área humanitária, sobretudo internacional, ainda é um ambiente europeizado e elitista. Todos os conhecimentos acumulados que eu tenho hoje vem de um lugar de extremo privilégio. Nem todas temos condições de viajar para fazer voluntariado, aprender inglês e francês, fazer Mestrado ou uma pós-graduação. É uma área com muito investimento e sem muita certeza de retorno. Portanto, primeiramente, meu conselho é de não fetichizar organizações internacionais. Existem diversas organizações nacionais, regionais ou até internacionais com representação nacional que fazem trabalhos de base incríveis, que, por vezes, são mais relevantes para a população do que algumas ONGs internacionais que ficam no plano estrutural / concertação política. Meu conselho, portanto, é começar com trabalho de base, inclusive voluntário, se oportuno e possível financeiramente. Em segundo lugar, se a pessoa tiver condição financeira ou tempo, ter o inglês é infelizmente ainda primordial para se trabalhar nesse contexto. E, também, se possível, eu aconselharia aprender francês ou árabe, segunda ou primeira língua muito utilizadas em países com intervenções humanitárias. Dica: o português tem sido mais valia atualmente, dado o contexto principalmente de intervenções em Moçambique.


O legal também é entender que cada percurso acadêmico e profissional é diferente entre nós, não existe uma fórmula mágica de se trabalhar no mundo humanitário, o mais importante é mandar o currículo.